Política de identidade e política de classe. Notas sociocríticas e psicossociais

 

sobre a proibição da abstracção na esquerda

 

 

Elisabeth Böttcher & Roswitha Scholz

 

Introdução * A dissociação-valor como forma fundamental da socialização patriarcal capitalista * Política de classe ou política de identidade? * Dissociação-valor e crítica da lógica da identidade * A crítica da lógica da identidade e a lógica própria das diversas desigualdades sociais * Sobre a necessidade da teoria * Dissociação-valor e matriz psicossocial do sujeito burguês * Forma, sujeito e indivíduo * Sujeito e crise * Proibição da abstracção e narcisismo * Conclusão e resumo * Bibliografia

 

Introdução

Este artigo não pretende abordar a questão de saber se as soluções adequadas são as políticas neoliberais de diversidade ou as políticas direitistas de isolamento, numa altura em que a sociedade se tornou um mosaico de discriminações. Trata-se antes de rejeitar tais decisões imanentes. Em vez disso gostaríamos de nos debruçar sobre a proibição da abstracção que prevalece na esquerda – mas não só nela – e neste contexto abordar a relação de tensão entre política de identidade e política de classe, que ocupa hoje um espaço importante no debate público. Coloca-se aqui o problema da determinação da forma social – após a localização da relação de tensão esboçada –, sendo que se trata de mediá-la com as relações sociais concretas numa perspectiva emancipatória. Forma social significa aqui a maneira como o patriarcado capitalista é constituído, ou seja, o princípio ou princípios que o regem. Neste ponto gostaríamos de observar a título introdutório que, dada a complexidade do tema e a brevidade do artigo, tivemos de condensar alguns conteúdos e pressupor outros. No entanto procurámos referir bibliografia adicional nos pontos relevantes. As fontes a que nos referimos, principalmente numa perspectiva feminista, são Robert Kurz, Moishe Postone e Theodor W. Adorno (cf. por exemplo, Adorno, 1966; Kurz, 1991, 2012; Postone, 2003). Para nós a determinação da forma social é a «base da miséria», como dizia o texto de anúncio do congresso que nos inspirou a escrever este artigo.

Hoje em dia é comum invocar as identidades de grupo (mesmo relacionadas com uma imaginária classe operária) e a preocupação (identitária ou material) como critérios de verdade. A teoria crítica precisa de distanciamento reflexivo, justamente para a crítica não acabar por ficar numa falsa imediatidade, caindo na teia da barbárie nas más condições da decadência. A primeira parte do artigo é de Roswitha Scholz e dedica-se a essa ideia. Elisabeth Böttcher aborda a dimensão psicossocial do problema na segunda parte.

 

A dissociação-valor como forma fundamental da socialização patriarcal capitalista

Para Postone e também para Kurz, o valor ou mais-valia e o trabalho abstracto moldam essencialmente a forma fundamental da socialização capitalista, e a contradição em processo, ou seja, a contradição entre matéria (produtos) e forma (valor), é afinal a «lei» que leva a crises de reprodução. Kurz parte daqui para a decadência do capitalismo. Em termos esquemáticos, a massa de valor por produto individual torna-se cada vez menor. O resultado é uma riqueza de produção, com a massa de valor a diminuir em toda a sociedade. O factor decisivo é o desenvolvimento das forças produtivas, que por sua vez está intimamente ligado à formação e aplicação das ciências naturais. Em contraste com a era do fordismo, em que a produção de mais-valia relativa era compensada pela necessidade adicional de força de trabalho para a obtenção de mais-valia, o trabalho abstracto está hoje a tornar-se cada vez mais obsoleto com a revolução micro-eletrónica. No capitalismo 4.0 essa evolução atinge o auge. A desvalorização do valor é um processo histórico que se manifesta no aumento do desemprego em massa à escala mundial, em crises bancárias, insolvências em massa etc. Há décadas é evidente não só que a impossibilidade de obter rendimentos através da obtenção de mais-valia, mediada precisamente por este processo de desvalorização, leva a um desvio para o nível da especulação, mas também que a dinâmica que nisso culmina conduz à decadência efectiva do capitalismo (Kurz, 1986, p. 35). No entanto, em nossa opinião, esse foco no valor/mais-valia como forma social fundamental não é suficiente. Em vez disso há que assumir que não é só o valor/capital como sujeito automático que constitui a totalidade, mas também é preciso levar em conta a «circunstância» de que no capitalismo também existem actividades de cuidados, que são realizadas principalmente pelas mulheres. Isso resulta numa dissociação do valor. A dissociação do valor significa, na essência, que as actividades reprodutivas consideradas femininas, mas também os sentimentos, características e atitudes a elas associados (emotividade, sensibilidade, actividades de cuidado) são dissociados do valor e subvalorizados. As actividades reprodutivas femininas no capitalismo têm assim um carácter diferente do trabalho abstracto, pelo que não podem ser facilmente subsumidas sob este conceito. Trata-se de um aspecto da sociedade capitalista que não pode ser abrangido pelo instrumental conceptual de Marx. Este aspecto está junto com o valor (mais-valia), mas por outro lado encontra-se fora dele e é por isso o seu pressuposto. Valor e dissociação estão assim numa relação dialética entre si: um não pode ser derivado do outro. A dissociação-valor tem de ser entendida como uma metalógica que abrange as categorias internas à economia. A dissociação-valor também tem de ser entendida na dimensão psicossocial. Certas características (sensibilidade, emotividade, superego fraco e similares) são dissociadas do sujeito masculino e projectadas na «mulher». Tais atribuições caracterizam essencialmente a ordem simbólica do patriarcado capitalista como um todo (Scholz, 2011). A dissociação não é – como poderia parecer – uma estrutura estática, enquanto a lógica do valor representaria o princípio dinâmico, mas está ao mesmo tempo antes desta numa interligação dialéctica, e só assim torna possível a «contradição em processo». Por isso há que assumir uma lógica de dissociação-valor em processo. Não só para as ciências naturais, cuja aplicação no processo de produção constitui o desenvolvimento das forças produtivas no patriarcado capitalista, mas também para o desenvolvimento de uma ciência do trabalho, que visa o aumento ideal da eficiência e a organização racional do processo de produção (palavra-chave: taylorismo), a dissociação do feminino e as correspondentes imagens das mulheres foram o pressuposto psicossocial tácito da sua existência, que também se expressa na dimensão cultural-simbólica (as mulheres são menos racionais, piores em matemática, ciências naturais e similares). Também nos discursos filosóficos, teológicos e médicos desde a era moderna se verifica uma dissociação do feminino. Na fase fordista após a Segunda Guerra Mundial, a família nuclear foi imposta como modelo de vida geral; o homem passou a ser o ganha-pão da família, mesmo nas classes sociais mais baixas, e a mulher, dona de casa. A dissociação do feminino é assim indispensável ao desenvolvimento das forças produtivas e à contradição em processo. Sem essa dissociação não haveria revolução micro-eletrónica, nem a obsolescência do trabalho abstracto com a consequente erosão da família nuclear e dos papéis tradicionais de género. Hoje em dia as mulheres já não podem ser confinadas ao domínio da reprodução, mesmo que profissionalmente acabem muitas vezes por trabalhar em serviços de cuidados ou similares, e continuem a ser responsáveis pelas tarefas domésticas e pelos filhos; com isto a «dissociação» não desapareceu, ela manifesta-se, por exemplo, em menores oportunidades de ganho e de ascensão profissional. Ao mesmo tempo, as relações de trabalho dos homens também se tornam precárias. As instituições da família e do trabalho remunerado estão a desfazer-se. Com o aumento das tendências de crise e empobrecimento, o patriarcado apenas se torna mais selvagem, sem que as hierarquias de género e as estruturas patriarcais fundamentais tenham desaparecido. A dissociação do feminino é, portanto, indispensável para o desenvolvimento das forças produtivas e para a contradição em processo (Scholz, 2013, p. 18s.). A dissociação-valor como princípio fundamental histórico-dinâmico, associada ao desenvolvimento das forças produtivas nela baseado, socava assim o seu próprio fundamento, as actividades reprodutivas na esfera privada. É portanto a dissociação-valor como contexto social fundamental que traz consigo a contradição em processo, e não apenas o valor. A ela se devem, de certo modo, os problemas globais actuais: empobrecimento socio-económico, alterações climáticas e muito mais. E não apenas ao «valor», como sugere obstinadamente uma visão androcêntrica que subestima o dissociado.

 

Política de classe ou política de identidade?

A transição do fordismo para o pós-fordismo, da sociedade industrial/centrada na produção para a sociedade de serviços, trouxe consigo, no contexto da esboçada dinâmica da dissociação-valor, o surgimento de novos movimentos sociais para além do antigo movimento operário: movimento alternativo, movimento feminista, movimento ecológico, movimento pacifista etc.; não por último, tornou-se visível um ponto de vista do crescente capital humano que tinha deixado para trás o proletariado industrial. Os temas da reprodução passaram a estar no centro das atenções (cf. Rucht, 1995). Devido aos anti-autoritários pós-68, partiu-se inicialmente de uma política da primeira pessoa. No feminismo isso correspondia ao postulado da parcialidade das chamadas «mulheres de Bielefeld» Maria Mies e companhia (Mies, 1978). Correspondentemente também predominava uma perspectiva multiculturalista, até que, após o colapso do Bloco de Leste, na euforia neoliberal da vitória do capitalismo, ela se transformou na desconstrução das identidades. Desde a década de 1990, pelo menos, tornou-se perceptível uma maciça culturalização do social. Ao mesmo tempo, no decorrer das tendências de globalização, ocorreu a «Grande Migração» (Enzensberger, 1994) , com movimentos de refugiados devidos às guerras (civis) e aos processos de empobrecimento maciço no chamado «Terceiro Mundo».

Na chamada «pós-modernidade», são exigidas identidades flexíveis e compulsórias – aqui vale mencionar também o «eu empresarial» (Bröckling, 2007) –, que em parte precisam de abandonar os papéis tradicionais. U. Beck descreveu euforicamente esse processo como individualização, ou até o celebrou (Beck, 1986). Concepções como a de J. Butler, que tratavam da desconstrução do género, encaixavam bem nessa evolução (Butler, 1991). Isso foi acompanhado por uma culturalização do social, já mencionada acima, que, com o agravamento da crise e a precarização da existência pelo menos desde 2008, foi seguida por um renascimento do materialismo e do conceito de classe, o que provavelmente também está relacionado com o medo da queda social nas camadas médias. Como constelação de contradições sociais, uma nova política de classe opõe-se a uma política de identidade (embora o conceito seja usado de forma muito vaga, por exemplo, para multiculturalismo, comunidade homossexual, reivindicações do movimento feminista etc., ou mesmo para diferenciações dentro desses movimentos e comunidades, que às vezes resultam em refinamentos infindos e absurdos). Por política de classe entende-se frequentemente uma luta contra a distribuição economicamente desigual, enquanto que por política de identidade se entende a luta contra o sexismo, o racismo, a homofobia e a transfobia a nível cultural, assumindo-se abstractamente uma consciência uniforme a partir da posição do respectivo grupo. Hoje em dia, esquece-se em grande parte que já ocorreu uma desconstrução das identidades, não só em J. Butler com os problemas de género (ibid.), mas também em posições pós-coloniais (cf. Hall, 1994, p. 182). Hoje, porém, tudo é passado pela peneira da identidade, pelo que os resquícios de identidade dificilmente conseguem sobreviver, mas apenas em  super-adaptação podem sobreviver no recurso à identidade. Por isso se recorre novamente a identidades que já haviam sido abstractamente negadas na desconstrução. Assim se pretende que uma política de classe seja transformada numa categoria de identidade no «classismo» (Kemper & Weinbach, 2009), embora, por outro lado, nesta discussão se insista novamente na objectividade da categoria da classe como contra-argumento.

Assim a política de classe é hoje um símbolo dos socialmente desfavorecidos, sem se perceber que estes sempre foram excluídos do movimento operário (cf. Kronauer, 2002, p. 86s.).

 

Dissociação-valor e crítica da lógica da identidade

Uma característica específica da teoria da dissociação-valor é que ela transforma a crítica do valor de Moishe Postone e Robert Kurz numa nova arquitectura teórica, com a crítica da lógica da identidade e a insistência no não idêntico (cf. Adorno, 1966). De seguida será abordada a relação entre a crítica da dissociação-valor e a crítica da lógica da identidade, uma vez que isso também é central para o significado do racismo e do sexismo como dimensões determinantes da desigualdade.

Adorno derivou uma crítica da lógica da identidade a partir da troca. Mas o decisivo não é simplesmente que o terceiro comum – desconsiderando as qualidades – seja o tempo médio de trabalho social, o trabalho abstracto que de certo modo está por trás da forma de equivalência do dinheiro, mas que este por sua vez precisa de excluir e considerar inferior o que é conotado como feminino, ou seja, o «trabalho doméstico», o sensível, o emocional, o ambíguo, o que não pode ser claramente compreendido por meios científicos. No entanto a dissociação do feminino de modo nenhum coincide com o não idêntico de Adorno. Pois justamente o objecto «especial» da relação de género, que além disso é também uma relação social fundamental, precisaria agora de um «conceito» próprio num nível teórico muito fundamental; pois, significativamente, justamente essa relação e «o feminino» eram considerados um domínio obscuro, que existia em contraste dualista com o conceptual. Seria um tanto absurdo declarar metade da humanidade como não idêntica, mas a forma de pensamento do não idêntico surge dessa estrutura fundamental. A forma de pensamento da lógica da identidade é, portanto, estabelecida com a dissociação-valor como contexto fundamental constituinte da sociedade, e não apenas com a troca ou o valor. A dissociação não é portanto o não idêntico. Mas é a condição prévia para que um pensamento formal e positivista se tornasse dominante na ciência e na política, abstraindo da qualidade particular da coisa concreta e das correspondentes diferenças, contradições, rupturas etc.. Contudo aqui é decisivo partir de uma contradição em processo modificada de acordo com a teoria da dissociação-valor (ver acima), que acaba por tornar obsoleto o trabalho abstracto, mas também as tarefas domésticas no sentido moderno. Só se pode falar de trabalho abstracto quando o capital, no contexto da lógica da dissociação-valor, começa a processar com base nos seus próprios fundamentos. A não identidade é aquilo que não é abrangido no conceito, na estrutura. Mas o não idêntico não pode ser definido concretamente de antemão, uma vez que está sempre ligado ao conteúdo concreto e à coisa em si. Para a crítica da lógica da identidade do ponto de vista da crítica da dissociação-valor, isso significa que os diferentes níveis e domínios e a «coisa» em si não só têm de ser irredutivelmente relacionados entre si, mas também devem ser considerados em sua conexão «interna» ao nível da dissociação-valor, como contexto basilar fragmentado e em dialéctica negativa da totalidade social. Contudo a crítica da dissociação-valor – uma vez que sempre soube das suas limitações, em contraste com uma crítica fundamental do valor – vai tão longe que não se coloca como um metanível abrangente absoluto, mas também reconhece a «verdade» de outros níveis e domínios particulares; por exemplo, tem de reconhecer a dimensão psicossocial e a psicanalítica, que não pode apreender teoricamente devido à sua necessária abstracção. Do mesmo modo a teoria da dissociação-valor também tem de pensar contra si mesma, no sentido em que tem de incluir outras disparidades e desigualdades sociais (racismo, anti-semitismo, anticiganismo, homofobia etc.). Ela não pode colocar-se como absoluta, como a teoria do valor, sem se contradizer, ao colocar-se como absoluta no contexto de um sujeito (masculino) autónomo e sem contradições. Somente quando a crítica da dissociação-valor se questiona e se relativiza é que ela pode afirmar-se como Absoluto e como contexto social basilar central (ver acima). Para Adorno «a mulher» não é o não idêntico, mas este é apenas estabelecido pela troca; a dissociação do feminino tem apenas uma existência descritiva, não tem um estatuto categorial nem é o não idêntico, como já foi dito.

Com isso, é claro, mas agora com um entendimento modificado de Adorno, continua a ser fundamentalmente questionada a dominância de um pensamento na lógica da identidade, que na economia, na política e na ciência trata tudo da mesma maneira, sem ter em vista o conteúdo específico e a coisa em si. Diversificação e crítica da lógica da identidade não devem, porém, levar ao «esquecimento» do geral. Momentos, domínios e tipos de discriminação individuais têm de ser igualmente considerados na sua objectiva conexão interna ao nível fundamental da dissociação-valor como princípio da forma da totalidade social. Mesmo que não possa ser estabelecida absolutamente como um nível abrangente e uma metalógica, não se pode abstrair dela como factor decisivo (Scholz, 2011, p. 124s.).

 

A crítica da lógica da identidade e a lógica própria das diversas desigualdades sociais

Este nível abrangente não pode ser alcançado pela política de identidade nem pela política de classe. Em ambos os casos o ponto de partida da crítica social é a preocupação (no que diz respeito à classe, ver por exemplo Baron, 2020; Eribon, 2016). Nesse contexto, uma nova política de classe, um suposto novo marxismo de classe, que muitas vezes se apresenta de maneira populista, leva novamente a considerar o sexismo, o racismo etc. como contradições secundárias. Assim Roldán Mendívil (2021), ao querer incluir o racismo e o sexismo na análise marxista, enfatiza a «centralidade da classe trabalhadora e a necessidade de uma organização baseada na classe» (ibid., p. 191).

A «classe» (e não apenas o classismo) é frequentemente invocada como uma categoria objectiva, cuja característica é a exploração. No entanto, a crítica devida a uma “esquerda lifestyle” (Wagenknecht, 2021) não é pelo esquecimento da classe e da questão social, mas sim pelo facto de o racismo, o anti-semitismo e o sexismo, sendo formas de discriminação estruturalmente condicionadas que à partida nada têm a ver com identidades, não serem necessariamente incluídos em pé de igualdade no sentido da crítica da dissociação-valor. É de supor que um novo discurso de classe e uma «nova política de classe» sejam tão actuais principalmente porque as camadas médias estão hoje em risco de declínio. «Preocupadas» dessa maneira, a «classe» volta agora à sua mente. Aqui seria de ter em conta que os migrantes e as mulheres estão objectivamente na base da estrutura social, e que o racismo e o sexismo deveriam então ser dignos de teoria em sua própria lógica, para lá de uma ideologia de classe (operária) que hoje, devido à obsolescência da classe operária, tem apenas um carácter fantasioso, retrógrado e nostálgico, para uma camada média em declínio que não quer ser considerada supérflua, como objectivamente é ou se está a tornar. Em vez disso, as camadas médias ameaçadas de declínio querem imaginar-se como uma classe dentro de uma estrutura social coerente e estável, que hoje já não existe com o declínio do patriarcado capitalista, quando a degradação e a superfluidade determinam essencialmente diferentes graus de desigualdades e estratificações.

Parece-me particularmente notável aqui que haja uma mistura de avaliações e estratégias de superação da esquerda e da direita nas políticas de frente transversal. Isso chega a tal ponto que a direita agora supostamente é contra o anti-semitismo e descobre o seu amor por Israel. Também nessas tendências de frente transversal os critérios habituais se dissolvem. Frequentemente se observa um retrocesso a um tosco marxismo tradicional e uma crítica personalizadora do capitalismo, que a meu ver contribuem para um anti-semitismo (estrutural) (cf. Postone, 1988). Paralelamente, cada vez mais se espalham a hipostasiação da prática e a hostilidade à teoria. Não é possível aprofundar este tema aqui. Também ao nível da consciência/ideologia se verificam distorções e se torna visível a decadência do patriarcado capitalista.

 

Sobre a necessidade da teoria

Perante o panorama teórico actual, é ainda mais importante insistir num pensamento abrangente e num entendimento da totalidade, que coloque no centro a determinação da forma, o fetichismo, as relações sociais autonomizadas e um todo fragmentado no sentido da crítica da dissociação-valor, para lá de um entendimento personalizador do capitalismo. Isso não exclui um compromisso prático crítico, mas não prioriza a prática. Igualmente se questiona um particularismo abstracto, como o conhecemos da sociologia do conhecimento ou das teorias do ponto de vista (cf. por exemplo, Harding, 1994; Lenk, 1972). É necessário enfrentar um tabu da abstracção, tanto nas políticas de identidade do positivismo do quotidiano como numa política de classe marxista vulgar; ambas se condicionam mutuamente. Em vez disso, é preciso suportar a tensão entre conceito e diferenciação, no sentido de uma orientação para o conteúdo do objecto concreto, sem a qual não será possível ter um novo universalismo urgentemente necessário (também na prática). Em resumo: a empiria, no sentido aqui reflectido da coisa em si, e um conceito abrangente de dissociação-valor, como princípio da forma social, não podem ser colocados em oposição um ao outro.

A teoria não pode, portanto, ser rejeitada; pelo contrário, hoje está novamente à vista a hostilidade à teoria e aos intelectuais, que sempre foi a música de fundo do anti-semitismo e exige uma prática fixada na imediatidade, sendo ela própria parte integrante da sociedade patriarcal capitalista em decadência. A ausência da teoria não é benéfica para a prática, que terá de abordar diferentes tipos de discriminação sem apreciar ideologias patriarcais problemáticas (que não envolvem apenas o Islão) de forma culturalmente relativista, a fim de alcançar conceitos de emancipação qualitativamente novos, para lá do patriarcado capitalista. Isso também terá de ser a directriz em iniciativas práticas, que no entanto, em tempos de decadência contraditórios, também terão de ser flexíveis e contradizer o actual espírito do tempo identitário, não se baseando na lógica da identidade. Quem defende ideias patriarcais ou racistas, anti-semitas, anticiganas (estas muitas vezes esquecidas e por isso talvez remetendo para uma dimensão central – cf. Scholz, 2007) deve ser criticado veementemente, mas a partir de uma perspectiva de dissociação-valor sensível ao contexto e que leve em consideração as intenções, a qual determina a sua fundamentalidade precisamente na relativização contraditória, sabendo que a linguagem também é sempre dominação coagulada, mas não estabelece mesquinha e autoritariamente a correção política, à maneira da cultura do cancelamento.

 

Dissociação-valor e matriz psicossocial do sujeito burguês

Sabendo que em termos de crítica da identidade a sociologia e a psicologia não podem ser simplesmente colocadas no mesmo plano (Adorno, 1998), mas que se trata de diferentes áreas temáticas, consideramos a psicanálise indispensável para determinar a constituição dos sujeitos actuais. Infelizmente não há espaço aqui para abordar a história da origem e internalização do capitalismo e a conexa história da constituição do sujeito burguês (cf. Wissen, 2017, 38ss.). No entanto, no geral partimos do princípio de que, dentro da história capitalista, surgiu um sujeito capitalista burguês, ao qual a forma do capitalismo não podia permanecer externa. Isto reflecte-se numa matriz psicossocial específica do sujeito burguês. O termo «matriz» refere-se a uma estrutura fundamental que tem de ser concebida não como rígida, mas sim como processual e dinâmica. Em resumo, pode-se dizer o seguinte sobre a matriz psicossocial do sujeito burguês: ela baseia-se centralmente na dissociação do feminino (ver acima), no fantasma da dominação da natureza e na imaginação da auto-afirmação (masculina). Além disso, está essencialmente ligada à interiorização da ética do trabalho, sendo a renúncia à pulsão uma condição psíquica central para o dispêndio de trabalho abstracto. Assim, no contexto da história da imposição do capitalismo, constituiu-se uma dinâmica pulsional em que, com o adiamento da pulsão, a libido dispara na alegre expectativa da «recompensa por essa renúncia», tornando assim a renúncia suportável. Este «truque» da libido para lidar com a renúncia à pulsão abre simultaneamente o caminho para processos de sublimação da pulsão, mas já sugere quão delicada pode ser a situação quando a «recompensa» pela renúncia não surge. Com Freud, partimos de uma estrutura da pulsão na qual o Ego, o Id e o Superego interagem como instâncias separadas em conflito entre si e portanto mediadoras da dinâmica psíquica. Esses processos e dinâmicas ocorrem em grande parte inconscientemente e também se alimentam de um inconsciente social. Ao contrário de Freud, porém, não localizamos essa constituição na história da humanidade, mas sim na história do patriarcado capitalista.

 

Forma, sujeito e indivíduo

Esta interpretação da psicanálise de Freud só é possível no contexto de uma crítica radical do iluminismo e do sujeito. O sujeito, como «moderno portador da acção do trabalho abstracto e das suas funções derivadas», não é mais do que a «forma social do agir nos próprios indivíduos: forma da percepção, forma do pensamento, forma do relacionamento, forma da actividade» (Kurz, 2005, p. 210). O sujeito não é idêntico ao indivíduo social-sensível, mas «o suporte consciente (individual e institucional) do movimento de valorização sem sujeito» (Kurz, 2004, p. 57). Em relação à matriz psicossocial do sujeito, a distinção entre sujeito e indivíduo social-sensível significa que o indivíduo, embora «confrontado» com a matriz psicossocial do sujeito burguês, se socializa de certo modo nos seus caminhos, mas não se funde nela. O «sujeito da forma do valor» pode ser definido com Robert Kurz à partida como «masculino» e «branco» (ibid., p. 24): a «forma de sujeito que surge» no iluminismo é «abstractamente universal» (ibid., p. 23) e o sujeito entende-se como livre, igual e racional. Nesse contexto, o sujeito (masculino) só pode constituir-se como sujeito livre e autónomo através da dissociação do feminino e das características menos valorizadas a ele associadas, como a emotividade, a fraqueza intelectual, a passividade etc. O sujeito é além disso um sujeito da concorrência. A concorrência decide quem, quando e como cai fora dos contextos sociais. Pela autodefinição ocidental e iluminista, «a priori a concorrência» (ibid., p. 26) torna-se racista, sexista, anti-semita e anticigana.

Robert Kurz descreveu ainda a relação entre a autovalorização irracional do capital, que se torna insubstancial e portanto vazia com o avanço da crise, e o sujeito como «auto-referencialidade da vazia forma metafísica ‘valor’ e ‘sujeito’» (Kurz, 2003, p. 69 [47]): «A forma ‘valor’, e assim a forma ‘sujeito’ (dinheiro e Estado), é pela sua essência metafísica auto-suficiente e, ainda assim, tem de se ‘exteriorizar’ no mundo real; mas apenas para regressar sempre a si mesma […] Nesta auto-suficiência, todavia com necessário movimento de exteriorização e em última instância auto-referencialidade da vazia forma metafísica ‘valor’ e ‘sujeito’, reside um potencial de destruição do mundo, uma vez que a contradição entre o vazio metafísico e a ‘obrigatoriedade da representação’ do valor no mundo sensível só pode ser resolvida no nada e, portanto, na aniquilação. O vazio de conteúdo de valor, dinheiro e Estado tem de se exteriorizar sem excepção em todas as coisas deste mundo, para poder representar-se como real” (ibid., p. 69s. [47]).

 

Sujeito e crise

Ora é claro que estas ideias não são transferíveis uma por uma para o nível psicossocial ou para a psique do indivíduo. No entanto, há muito tempo é visível que o «vazio de conteúdo» descrito por Kurz também se reflecte nas pessoas, que estão presas na forma de sujeito. Através dos processos de crise pós-modernos, o sujeito capitalista burguês perde cada vez mais a sua própria base com o desaparecimento do trabalho como fundamento substancial para a produção de valor e mais-valia, porque as formas de produção e reprodução social (trabalho, família, Estado) estão a ruir como suportes. Os sintomas da crise são acompanhados por processos de individualização e flexibilização, que marcam o fracasso na realidade como uma falha individual.

Isso reflecte-se entre outras coisas na depressão, na qual as pessoas estão principalmente ocupadas em se acusar e julgar permanentemente. Rejeitadas por si mesmas, tornam-se suas próprias acusadoras e juízas. Não se pode ignorar a proximidade entre narcisismo e depressão: em ambos os casos o caminho para o mundo dos objectos está bloqueado, as pessoas giram em torno de si mesmas. Engrandecer-se quando «se» sente pequeno é, além da depressão, outra variante de lidar com a insuportável ameaça (narcisista) permanente de «não conseguir». Aqui as próprias experiências de impotência, dependência e ofensa e os medos associados são negados, reprimidos e a própria genialidade é imaginada compensatoriamente na megalomania narcisista. Nesse caso, identificações autoritárias também podem tornar-se atraentes, pois é possível apoiar-se no brilho e na grandeza de um objecto altamente valorizado e, de certo modo, participar da suposta grandeza do objecto idealizado.

Em geral as «recompensas» pela «renúncia à pulsão» estão a tornar-se cada vez menores e para muitos já nem sequer são perceptíveis, enquanto as exigências aos indivíduos aumentam constantemente. Embora os indivíduos tenham certamente maneiras muito diferentes de lidar com as imposições e contradições sociais descritas, as formas narcisistas de processamento são ideais – precisamente porque as possibilidades subjectivas de processamento chegam ao fim e, nessa medida, a fuga para a frente é o caminho de volta ao narcisismo. Analogamente às citadas análises de Robert Kurz, pode-se dizer, com vista ao nível psicossocial do sujeito burguês: a última âncora do sujeito burguês é o seu «narcisismo», aqui o sujeito recua para si mesmo, para poder de algum modo «expressar-se» ou para continuar a ser capaz de viver e agir. No entanto, «o âmago desse sujeito é um vazio, trata-se de uma forma ‘em si’ sem qualquer conteúdo» (Kurz, 2003, p. 68 [47]). Mesmo que os indivíduos não se fundam na forma de sujeito: solidão, sentimentos de alienação do tipo «o que estou a fazer faz realmente sentido?», incapacidade de relacionamento, esgotamento e depressão estão relacionados com essa falta de sentido e vazio de conteúdo.

No processamento dos processos gerais de crise social, factores específicos de género desempenham um papel não insignificante. Acima o sujeito capitalista burguês foi à partida definido por Robert Kurz como «branco» e «masculino». Isso também significa que os homens são confrontados com «exigências» diferentes das mulheres, decorrentes da forma de sujeito. Assim, para o sujeito masculino, que tem de se comportar como autónomo, potente etc., qualquer forma de dependência, impotência, fraqueza etc. é uma ameaça que deve ser repelida, negada, recalcada. A dissociação do feminino como base essencial da subjectividade masculina não é um acto que se realiza apenas uma vez na socialização, mas tem de ser reproduzida repetidamente, especialmente quando a própria autonomia e potência são questionadas. O medo da castração é de certo modo inerente ao sujeito masculino e tem de ser repelido continuamente.

Quando as possibilidades de sublimação «civilizadas» são cada vez mais esvaziadas, o sujeito masculino fica em apuros e é forçado a encontrar outras formas de se afirmar. A violência é um instrumento bastante óbvio para uma «pseudo-estabilização» masculina (cf. Pohl, 2013, p. 145), pois permite demonstrar a própria potência ao exterior. A relação entre a masculinidade em crise e o narcisismo torna-se particularmente evidente no amoque: no suicídio alargado do amoque, em que se imagina em última instância a destruição do mundo, realiza-se simultaneamente o acto de auto-afirmação masculina. Mesmo que em casos isolados também haja mulheres que cometem amoque, isso não altera o facto de que o amoque torna muito evidente a relação entre masculinidade e violência. Por isso não é por acaso que a maioria dos actos é cometida por homens e que as mulheres são vítimas de amoque de forma desproporcional. O último facto pode estar relacionado com a circunstância de as mulheres, ou a feminilidade, não apenas pela excitação sexual que provocam, de certo modo também mostrarem repetidamente aos homens a sua própria dependência e a ameaça da perda de controlo (cf. ibid.).

No entanto as mulheres também têm de arriscar a pele. Tendo em conta a dupla carga que recai sobre as mulheres, que têm de conciliar a vida profissional e a familiar, elas fazem-no frequentemente em circunstâncias muito mais precárias do que os homens. Além disso, as mulheres também têm de lidar com o medo do declínio social, sentimentos de impotência e de desvalor. Também para elas ideologias de crise pequeno-burguesas, teorias da conspiração, esoterismo, racismo, anti-semitismo e anticiganismo podem ser estratégias de alívio. O passado recente mostrou repetidamente que as mulheres também têm oportunidades de ascensão na direita, que continua a ser um clube predominantemente masculino (ver, por exemplo, Meloni ou Le Pen). Nesse sentido, elas têm agora um lugar na actual administração da crise, quando se trata de «tirar a carroça da lama».

 

Proibição da abstracção e narcisismo

Que tem isto a ver com a proibição da abstracção na esquerda, como descrita por Roswitha Scholz na primeira parte deste artigo? Por cá ainda vamos vivendo os processos de crise de forma mais atenuada em comparação com os desenvolvimentos globais, mesmo sendo certo que eles se têm aproximado cada vez mais devido à COVID-19 e à guerra na Ucrânia. E a Ucrânia está longe de ser o único foco de crise. Não menos importante, os conflitos no Médio Oriente continuam a agravar-se. O Irão continua a desenvolver armas nucleares, praticamente sem ser incomodado pela comunidade internacional. Em muitos países prevalecem condições semelhantes às de uma guerra civil e gangues corruptos. Nos países ocidentais é possível observar como a democracia se deteriora cada vez mais a partir de dentro, com a extrema-direita a agrupar-se, muitas vezes sob a forma de facções masculinas dentro dos aparelhos militares nacionais. E ainda nem sequer abordámos aqui os temas da migração e do clima.

No entanto parece que a complexa e fragmentada totalidade da sociedade da dissociação-valor, que devido à sua própria lógica contraditória se aproxima a toda a velocidade do seu «limite interno» (cf. Kurz, 2007, p. 278), não coloca nada no campo de visão. Com “limite interno” referimo-nos aos limites do desenvolvimento imanentes ao capitalismo, o que por sua vez tende a descarregar-se de forma extremamente brutal nos processos de degradação e decadência já mencionados, se não for accionado o travão de emergência. O facto de este não ser accionado pode parecer bastante estranho. Mas se for verdade que são precisamente as condições sociais gerais que levam as pessoas a «viver psicologicamente acima das suas possibilidades» (livremente inspirado em Freud; cf. Freud, [1915] 1981, p. 336) (1), isso torna-se mais compreensível. Não em último lugar, o distanciamento crítico tornou-se uma tarefa gigantesca, porque a vida das pessoas sob o ditame permanente da optimização dificilmente permite uma pausa. Com isso, nas circunstâncias do narcisismo, a impotência e a incapacidade de agir são simplesmente inaceitáveis e insuportáveis – tudo tem de ser de algum modo tornado manuseável e solucionável. Além disso, a partir de uma perspectiva narcisista, o mundo só pode ser percebido de forma distorcida, na medida em que os objectos, incluindo conteúdos, acontecimentos etc., só podem ser incorporados imediatamente (por exemplo, através de identificações imediatas) ou têm de ser negados ou destruídos. É precisamente o acesso imediato e narcisista ao mundo dos objectos que constitui um bom terreno fértil para as políticas de identidade: aqui é possível trabalhar de forma diligente e flexível, sempre de acordo com o espírito do tempo, na própria identidade (óptima), enquanto ao mesmo tempo as atribuições identitárias tornam o mundo mais simples e fácil de lidar. Mas também o discurso de classe parece ser atraente aqui: também aqui se pode alcançar certa clareza com mentalidades simples de amigo, inimigo e «eles lá em cima», infelizmente com o efeito colateral de que mais uma vez se recorre a ideologias de crise pequeno-burguesas, que são naturalmente abertas ao racismo, anti-semitismo, anticiganismo, teorias da conspiração, sexismo etc. Além disso não se pode esquecer que o narcisista tipo social pós-moderno é infinitamente «flexível» – oscilar entre as polaridades, cenas etc. é de certo modo o seu destino. Mas isso também significa que, mais uma vez, existe o risco de uma virada para ideologias de direita e, precisamente por isso, é necessária uma teoria crítica que feche as brechas para a direita. Nesse sentido, as disposições autoritárias e narcisistas não representam nenhuma contradição: justamente o «autoritário» pode tornar-se perigosamente atraente para afastar os perigos narcisistas – especialmente porque os meios autoritários frequentemente se apresentam como particularmente «comunitários»: Aqui o eu fraco e narcisista encontra apoio na defesa contra medos de castração e perseguição, que também podem ter um carácter paranóico. Estratégias de defesa compartilhadas funcionam particularmente bem – claro que com o efeito colateral de também desaparecerem as inibições para expressar emoções.

 

Conclusão e resumo

A nossa contribuição tratou do tabu da abstracção na esquerda, no que diz respeito à política de classe e à política de identidade hoje muito discutidas. Isto significa acima de tudo a ausência de determinação da forma das relações sociais, no sentido da dissociação-valor como forma social fundamental, ou seja, um ignorar de uma totalidade social em sua complexidade, que antecede as preocupações e com elas é mediada. Não se pode regressar ao antigo e obsoleto marxismo da luta de classes, que declara o sexismo, o racismo, o anti-semitismo e o anticiganismo como contradições secundárias, mas estes têm de ser incluídos com as suas próprias lógicas. Na crise fundamental do patriarcado capitalista, volta-se assim a supostas certezas para criar ordem num mundo em desordem. O mesmo se aplica também a uma política de identidade, quando esta parte unilateralmente da preocupação e perde de vista o todo abrangente. Uma análise pouco complexa das relações sociais corre sempre o risco de um anti-semitismo estrutural, ao fazer uma crítica personalizadora do capitalismo.

Na segunda parte mostrámos como a proibição da abstracção está ancorada ao nível do sujeito, que coloca como absolutos o seu ser imediato e o seu interesse próprio. Com o desaparecimento do trabalho abstracto e consequentemente da produção de valor e de mais-valia, na crise o sujeito perde também os seus apoios institucionais, como o trabalho, a família e o Estado. As consequências são entre outras depressão e tendências narcisistas. O stress para os indivíduos é cada vez maior. As recompensas pela renúncia à pulsão são cada vez mais raras. Sentimentos de desvalorização, falta de relacionamentos e um vazio interior são também consequências das pressões da flexibilização. O aumento da violência masculina, que se manifesta em tiroteios e suicídios em massa, pode ser interpretado neste sentido, assim como a formação de grupos dissidentes de direita, na sua maioria masculinos. É precisamente a abordagem narcisista do mundo que torna as pessoas vulneráveis a uma falsa imediatidade. Por um lado, surge uma mentalidade de improvisação em relação às opções identitárias; por outro lado, o mundo torna-se mais fácil de explicar através da identificação com um grupo. Isto também se aplica à identificação com a pertença a uma «classe». Tais constelações e ambivalências são também o pré-requisito para o racismo, o anti-semitismo e as teorias da conspiração. Devido a à orientação interna do sujeito para a flexibilidade, existe aqui sempre a tendência para virar-se noutra direcção, inclusive numa direcção autoritária.

Tudo isso dificulta um distanciamento crítico, que seria necessário para decifrar relações sociais complexas, num nível de abstracção adequado. No entanto as relações nunca ficam absorvidas no conceito. Assim é de esperar que na crise surja também uma consciência, um reconhecimento de que não há saída da miséria recorrendo apenas ao concreto e ao imediato, mas que é necessária uma visão abrangente ao nível da forma, numa perspectiva panorâmica. A sociedade deve ser sempre entendida como uma estrutura contraditória e não como um todo hermético.

 

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(1) Freud afirma: «Quem é obrigado a reagir constantemente de acordo com regras que não são expressão das suas tendências pulsionais vive do ponto de vista psicológico acima das suas possibilidades e pode ser objectivamente considerado um hipócrita, independentemente de ter ou não consciência clara dessa diferença. É inegável que a nossa cultura actual favorece o desenvolvimento desse tipo de hipocrisia numa escala extraordinária» (Freud, 1981 [1915], p. 336).

 

Original alemão em Netz-Telegramm Informationen des Ökumenischen Netzes Rhein-Mosel-Saar, Outubro 2025 (Online) ISSN 2942-0318, onde consta a seguinte referência bibliográfica da publicação: “Böttcher, E. & Scholz, R. (2024). Identitätspolitik und Klassenpolitik. Einige gesellschaftskritische und sozialpsychologische Anmerkungen zum linken Abstraktionsverbot. Em S. Elsner, C. Höcker, O. Decker & C. Türcke (Eds.), Desintegration und gesellschaftlicher Zusammenhalt. Kritische Theorie – Psychoanalytische Praxis [Desintegração e coesão social. Teoria crítica – Prática psicanalítica) (pp. 65–86). Gießen: © Psychosozial-Verlag. A reprodução é feita com a gentil autorização da Psychosozial-Verlag, Gießen 2024, www.psychosozialverlag.de”. Tradução de Boaventura Antunes (12/2025)

 

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