A paz é possível, mas apenas em ruptura com o capitalismo e sua mania da prontidão para a guerra

 

Herbert Böttcher

 

A desintegração daquilo a que outrora se chamava «ordem mundial» avança mais depressa do que é possível acompanhar. Os EUA invadem a Venezuela. Na mira estão Cuba e todo o quintal latino-americano, sem esquecer o Irão, alegadamente para proteger Israel. Netanyahu e Trump aliam-se numa aliança autoritária de direita. Nos cálculos dos EUA, o Irão pode ser usado para conter a China como concorrente na luta pela hegemonia global. Por outro lado, os observadores na China interpretam as manobras dos EUA como um ataque às suas próprias ambições de ascensão global. Após perdas amargas na liderança tecnológica em semicondutores e estrangulamentos no projecto «Rota da Seda», surgem agora receios de que os EUA «possam retardar a ascensão chinesa através do controlo das reservas globais de petróleo».1 Entretanto a Rússia, onde se sonha com um novo grande império, encontra-se numa guerra de desgaste contra a Ucrânia. Após a perda da Síria como aliado na região e como base logística para incursões em África, a Rússia está ainda mais empenhada em garantir o seu papel geopolítico. Também potências regionais e potências médias vislumbram margem de manobra para se intrometerem na luta dos «grandes». A Turquia e o Irão estão particularmente activos. Nesse contexto mudam alianças e estratégias, assim como amigos e inimigos, a uma velocidade de tirar o fôlego. E, no meio de tudo isto, gangues e grupos terroristas, produtos dos processos de desintegração estatal, lutam pelo saque resultante dessa desintegração.

A Europa está preocupada com a sua coesão e é militarmente demasiado fraca. Sem força militar, a Europa parece estar à mercê das forças globais, sem qualquer protecção. O que é ainda mais verdadeiro agora que os EUA saíram de facto da NATO. Assim, uma União Europeia de Defesa com um exército comum e armas nucleares britânicas e francesas parece ser a única alternativa. E se, face aos processos de divisão europeus, isso não for possível em conjunto, pelo menos num pacto dos «dispostos».

«Dispostas», as igrejas dão a sua bênção à militarização. Querem mostrar que estão à altura dos tempos que mudaram. Já não é a justiça que cria a paz, mas sim a capacidade bélica. E assim renunciam aos familiares «se» e «mas» éticos. Sem rodeios, defendem a defesa da «nossa liberdade», na qual a liberdade é rapidamente confundida com a possibilidade de comprar bananas e morangos a qualquer hora, mesmo no Inverno. Mas a liberdade está a ser desmantelada sobretudo pelo facto de praticamente todos os Estados se encontrarem a caminho de um autoritarismo de direita, que anda de mãos dadas com o ressentimento contra os «supérfluos» e com a hostilidade aberta contra a justiça social. Isto encontra a sua expressão em lutas brutalmente travadas contra os refugiados e aqueles que se recusam a cumprir o dever de trabalhar. No Minnesota, a luta contra os imigrantes ou os norte-americanos não brancos assume formas semelhantes a uma guerra civil. A agressão contra pessoas em situação de necessidade acompanha a corrente do libertarismo, que pretende salvar o neoliberalismo falhado com uma desregulamentação ainda mais radical, aliada a ataques ao Estado social burocrático e «socialista». Isto está a chegar cada vez mais também à Alemanha. A partir do livro de Merz «Mehr Kapitalismus wagen [Ousar mais capitalismo]»,2 a desregulamentação radical, seguindo o modelo do argentino Milei, deverá salvar a economia alemã. Foi o que anunciou a especialista em economia Veronika Grimm na recepção de Ano Novo da Câmara de Comércio e Indústria de Colónia.3

No entanto, a constatação de que o capitalismo se depara cada vez mais drasticamente com os seus limites que não pode ultrapassar poderia trazer alguma luz a esta situação desoladora. Como o trabalho, enquanto substância do capital, se esvai consistentemente, a acumulação de capital através da produção de valor e mais-valia choca contra limites incontornáveis. Mas, como o que é óbvio não pode ser verdade e porque os actores políticos, tal como as pessoas comuns, conseguem imaginar mais facilmente o fim do mundo do que o fim do capitalismo, agem de forma confusa e (auto)destrutiva. Na crise do capitalismo, que se agrava e é imanentemente insuperável, também os Estados esbarram nos limites da sua capacidade de acção. As regulamentações sociais são substituídas por medidas autoritárias e repressivas. Nas relações externas, os Estados concorrentes devem ser economicamente colocados de joelhos, transformados em «Estados em colapso» e, em caso de dúvida, subjugados militarmente. A concorrência de crise manifesta-se no capitalismo em desintegração, tanto no autoritarismo libertário como na militarização. A redução de direitos, a ilegalidade e a ausência de direitos fundem-se. Com a acumulação de capital, rui também a forma vazia do direito associada ao capitalismo. Não é apenas o «Estado social» que se desintegra, mas também o «Estado de direito», assim como os acordos globais são vítimas da «lei do mais forte». A situação não se torna mais segura, mas sim mais insegura do ponto de vista social, ecológico e jurídico – também e sobretudo devido à fixação unidimensional na militarização, que acompanha cortes nas áreas social e ecológica. O facto de os últimos onze anos terem sido os mais quentes é, no máximo, registado de forma marginal. As contradições tornam-se talvez mais evidentes ali onde a destruição ecológica dos meios de subsistência, juntamente com as suas consequências sociais e económicas, é ignorada, enquanto o capitalismo, já irrecuperável, deve ser «salvo» através de um crescimento imposto de forma libertária, do autoritarismo e da militarização, e nenhum preço é demasiado alto para isso.

Tais contradições já não têm o potencial de impulsionar o desenvolvimento do capitalismo para um patamar superior, mas são a expressão da sua irracional tendência para a autodestruição. É aí que se concretiza o seu fim-em-si abstracto e niilista: fazer do dinheiro mais dinheiro. Quanto mais se depara com o seu limite imanente, mais corre para o vazio, para o nada, para a aniquilação. Na «ordem mundial» em desintegração, os Estados em desintegração actuam com estratégias de pura política de poder, em alianças variáveis e oportunistas. A militarização continua a fazer girar a espiral que conduz à autodestruição e acompanha a disposição de assumir riscos crescentes num delírio irracional. A situação lembra a justificação do uso de armas nucleares pelo «especialista em ética social» católico Gustav Gundlach na década de 1950. Ao utilizá-las em defesa da liberdade e do direito, a destruição do mundo teria de ser aceite como expressão de fidelidade à «manifestação da majestade de Deus e da sua ordem».4 A «majestade de Deus» tem de ser substituída pela «majestade» do capitalismo para se adequar ao presente. O facto de este não ser uma majestade, mas sim um produto da decadência, é algo que os actores políticos, tal como as pessoas comuns consumistas, não querem ou não conseguem admitir. A única «perspectiva» que lhes resta é o caminho errante de «continuar assim», com cada vez mais do mesmo que destrói. A orientação emancipatória só pode ser alcançada se, em vez de «mais capitalismo» (Merz), se ousar a ruptura com o capitalismo em «pensamentos, palavras e obras». Começar por reconhecer a realidade da sua decadência e dizer a verdade, em vez de apostar em ilusões consoladoras. Em perspectiva, poderia então partir-se da ideia de que a solidariedade com os mais desfavorecidos e a ultrapassagem das relações de subordinação e hierarquia terão de ser a base para uma vida em segurança social e ecológica.

 

1 Cf. Chinas Unbehagen über die Vorgänge im Iran [O mal-estar da China face aos acontecimentos no Irão], em: Kölner Stadt-Anzeiger de 13.01.2026.

2 Merz, Friedrich: Mehr Kapitalismus wagen. Wege zu einer gerechten Gesellschaft [Ousar mais capitalismo. Caminhos para uma sociedade justa], Munique 2008.

3 Cf. Ruf nach radikaler Deregulierung [Apelo à desregulamentação radical], em: Kölner Stadt-Anzeiger de 10/01/2026.

4 Gundlach, Gustav: Die Lehre Pius XII. vom gerechten Krieg [A doutrina de Pio XII sobre a guerra justa], em: Stimmen der Zeit n.º 164, 1959, 13.

 

Original “Frieden ist möglich, aber nur im Bruch mit dem Kapitalismus und seinem Kriegsertüchtigungswahn” in exit-online.org. Antes publicado em Micha.Links 1/26, p. 26ss. Tradução de Boaventura Antunes


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