Herbert Böttcher
A Rússia invade a Ucrânia. Com o massacre de 7 de Outubro o Hamas visa a aniquilação de Israel. Seguiu-se uma onda de anti-semitismo. Israel defende-se numa guerra em várias frentes que está fora de controlo, não poupa na destruição de Gaza e abre mais portas ao movimento dos colonos. A destruição de Israel também é o que pretende o Irão– um regime repressivo e anti-semita que simultaneamente tem de lutar contra sinais de desintegração interna. É suspeito de estar a desenvolver armas nucleares. Os EUA e Israel aliam-se para a guerra contra o Irão – mas apenas a curto prazo. Afinal Trump só tem em mente a defesa do direito à existência de Israel na medida em que esta possa ser instrumentalizada como demonstração de força – também perante a China. Os objectivos de guerra apresentados pelos EUA ao público mudam rapidamente: trata-se da mudança do regime desumano no Irão, depois «apenas» da destruição de importantes instalações nucleares, da interrupção do enriquecimento de urânio, da entrega de urânio enriquecido… e finalmente do Estreito de Ormuz, cujo bloqueio põe em risco o funcionamento do sistema capitalista.
Entretanto, no meio do caos, Israel persegue os seus próprios objectivos de guerra, como a eliminação do Hezbollah apoiado pelo Irão no Líbano. Outros Estados árabes são arrastados nesta interacção. Embora os estrategas militares israelitas saibam que tudo isto tem poucas perspectivas de sucesso e que uma vida normal é praticamente impossível no norte de Israel, o governo não arreda pé. Isso, por sua vez, contraria a urgência de pôr fim à guerra para conter a crise económica global, que se manifesta sobretudo sob a forma de estagflação – de preços em alta e estagnação económica. Assim Trump pressiona para que haja negociações entre Israel e o Líbano, embora o governo libanês não disponha do poder nem dos meios para agir contra o Hezbollah. Neste contexto confuso, a ameaça real de aniquilação de Israel mal é percebida. Pelo contrário, Netanyahu e companhia, com a sua actuação irracional, estão a dar de barato a destruição de Israel.
Uma dinâmica essencial da escalada é a perda de controlo. Esta manifesta-se não só nos objectivos de guerra difusos, mas também na actuação estratégica. O plano de pôr rapidamente fim à guerra com ataques militares pontuais revela-se enganador e ilusório. Consequentemente sucedem-se declarações de vitória e cenários de ameaça, especulações sobre a retirada e o envio de tropas terrestres, prolongamentos da guerra e garantias de que a guerra terminará em breve com uma vitória. Se a guerra não tiver um fim próximo, os EUA correm o risco de ficar na posição de perdedores, que investiram muito, mas alcançaram pouco: em todo o caso, nenhuma mudança de regime, antes mesmo o seu fortalecimento, nenhum fim do programa nuclear iraniano e muito menos o fim das ameaças a Israel.
O ponto alto destas contradições revelou-se na ameaça de destruir toda uma civilização no Irão. Numa retórica apocalíptica que parecia determinada até ao fim, Trump anunciou a 7 de Abril: «Uma civilização inteira morrerá esta noite, de modo a que nunca mais possa ser recuperada.» Menos de dez horas depois, veio o alívio: 14 dias de cessar-fogo e negociações – com um regime que deveria ser substituído, mas que agora tem o poder de empurrar ainda mais a economia global para a crise, e cujo poder parece também consolidado internamente, com todas as implicações desumanas.
A reacção global é um suspiro de alívio, que se mistura com a sensação de ter escapado mais uma vez. Fora isso também na Europa domina um silêncio envergonhado, apenas críticas tímidas à ameaça de genocídio de Trump. O principal é que de algum modo as coisas continuem, ainda que com todas as contradições que perante a crise já não podem ser superadas de forma imanente ao sistema – por exemplo, rumo a uma nova estrutura hegemónica. Estas contradições não se resumem simplesmente a um presidente que enlouqueceu. Pelo contrário, nele condensa-se a loucura cada vez menos controlável das relações capitalistas na sua dinâmica de crise.
As «guerras de ordenamento mundial» (Robert Kurz) desde os anos 90 têm sido travadas na periferia, que, com a crise da dívida a partir dos anos 80, ficou economicamente ainda mais à margem do que antes. Com os processos de desintegração concomitantes, as estruturas de ordem estatal passaram a situações anómicas, nas quais bandos, milícias terroristas e resquícios de actores estatais lutam pelos recursos em desintegração, nomeadamente pelo acesso a matérias-primas, instalações de produção ainda em funcionamento e mercados remanescentes. As guerras deveriam criar ordem e assim garantir a funcionalidade do capitalismo global. Isso fracassou redondamente.
Entretanto também as grandes potências estão envolvidas nos processos de desintegração do capitalismo em colapso e lutam pela sua auto-afirmação global. A ordem mundial está a entrar em anomia por meio de políticas de direita e de estratégias neo-imperiais, e ao mesmo tempo sem perspectivas, sem uma base económica real para uma nova hegemonia. Os EUA invadem a Venezuela. Na mira estão Cuba e todo o quintal latino-americano. Trump e Netanyahu aliam-se numa aliança de guerra autoritária de direita. Através do Irão os EUA pretendem atingir também a China como concorrente. Com a desintegração da hegemonia norte-americana, também as potências regionais e médias vislumbram uma oportunidade de se envolverem na luta entre os grandes e assim disfarçarem as suas crises internas. Nesse contexto mudam as alianças e as estratégias, tal como os amigos e os inimigos. Quase esquecida na percepção geral, a Rússia continua numa guerra de desgaste contra a Ucrânia, na qual os sonhos de um grande império russo se desvanecem. À semelhança dos EUA na guerra contra o Irão, também a Rússia terá subestimado a resistência militar.
A Europa parece militarmente demasiado fraca num «mundo de predadores» (von der Leyen). A Alemanha vai à frente: mais concorrência e militarização supostamente conduziriam à saída da crise. Isto também se aplica a nível global. Uma vez que as contradições – se não se quiser entrar em guerra – já não podem ser resolvidas através da expansão, resta apenas mais do mesmo. O libertarianismo significa o agravamento do neoliberalismo, e os ataques à burocracia e ao Estado social ganham em amplitude e força. Quanto mais o capitalismo falha, tanto mais se aplica o lema: «Ousar mais capitalismo» (Merz). Também é precisamente no libertarianismo que a «dureza» conta. Ela encontra a sua expressão num autoritarismo que se dirige contra os refugiados e contra todos aqueles que escapam à obrigação de trabalhar. São alimentados ressentimentos racistas, sexistas e anticiganos, sobretudo contra pessoas que se tornaram supérfluas para a valorização do capital, mas que devem ser mantidas sob controlo. Ao mesmo tempo abrem-se repetidamente espaços para o anti-semitismo, como pára-raios colectivo e individual nos contextos de crise capitalista, chegando até a um anti-semitismo redentor, que pretende salvar o mundo da sua crise através do extermínio dos judeus ou de Israel. No fundo estes processos conduzem a uma luta social-darwinista pela existência, a uma guerra de todos contra todos – o que se manifesta não só no Irão, mas também nos diversos conflitos bélicos.
O que se cristaliza no Irão e a nível global com guerras e militarização como uma situação explosiva e irracional só pode ser entendido no contexto do capitalismo em desintegração. Não é possível compreendê-lo se, numa «falsa imediatidade» (Adorno), forem vistos apenas campos de conflito isolados. Só a extensão da reflexão à «totalidade concreta», ou seja, à mediação dos campos de conflito concretos com o todo social dos processos de crise capitalistas, permite reconhecer a gravidade da actuação cada vez mais irracional dos actores políticos.
Aqui também se inclui o facto de, nos processos de crise, estar a regressar a religião já declarada morta. Isto não se aplica apenas ao islamismo e aos seus sonhos de um Estado teocrático, como os que há muito prevalecem no Irão. Também o governo de Netanyahu é influenciado por promessas de salvação religiosas. Nos EUA está a alastrar uma visão apocalíptico-metafísica da história – desde o movimento MAGA até ao governo (vice-presidente JD Vance) e às principais facções do capital (Peter Thiel). Esta visão é determinada por noções de fim do mundo, marcadas de forma dualista pelo esquema do bem e do mal, do amigo e do inimigo. O caminho para a ruína estaria a ser preparado pela rejeição de um mundo desejado por Deus. A este pertencem uma nação homogénea, a família patriarcal, um modelo de género binário e heteronormativo e, especialmente no Ocidente: a prioridade para os que têm bom desempenho e são bem-sucedidos, que devem preparar o caminho para o super-homem em simulações transhumanas e transmundanas. O diabo é um Estado mundial unitário regulador, um Estado de bem-estar social com ideais de justiça social. As exigências de solidariedade e justiça já não são recebidas apenas com um sorriso complacente, mas com hostilidade agressiva.
Neste conglomerado, uma figura da literatura apocalíptica desempenha um papel significativo: o Katechon, literalmente o «retentor» ou «impedidor». Antes que o mundo transhumano e transmundano possa tornar-se realidade, o Anticristo tem de ser detido. É nesse papel na história da salvação que o movimento MAGA se imagina na sua oposição ao Estado social, bem como às visões humanas e solidárias de convivência. Se isto puder ser interrompido e a nação for curada dos demónios do seu Estado de bem-estar social, nada impedirá um final sobre-humano e de outro mundo.
Seria imprudente descartar tudo isto como loucuras exóticas – especialmente porque também o islamismo, tal como se manifesta designadamente no Irão, representa uma variante da destruição do mundo, para alcançar condições paradisíacas no além como «resposta» a uma crise cada vez mais aporética. Nisto as visões islâmicas e cristãs de destruição vão de mãos dadas.
Também nessas loucuras religiosas se manifesta a «lógica» do capitalismo, que submete o mundo ao irracional fim-em-si da multiplicação do capital, realizando ao fazê-lo a dissociação da reprodução, como pré-requisito tácito dessa irracionalidade. Com razão Marx e outros criticaram isto, recorrendo a um conceito do mundo das religiões, como fetichismo, como idolatria secular. Ao contrário das alucinações carregadas de história da salvação que visam ultrapassar os limites do humano e do mundo, o capitalismo fracassa nos limites das possibilidades de valorização do capital, na medida em que não consegue escapar à compulsão inerente à concorrência de substituir o trabalho — a substância do capital — pela tecnologia, e cada vez mais pela tecnologia microeletrónica digitalizada até à IA.
Com cada vez menos trabalho, o espectáculo capitalista dá em nada. Em nome de uma suposta autopreservação, está a levar à destruição dos que são supérfluos para a valorização do capital e das bases naturais da vida. Ao mesmo tempo conduz à autodestruição de um mundo capitalista sem sentido, no qual literalmente já não nada mais importa. A autodestruição e a destruição do mundo parecem ser, tanto para o sujeito masculino megalómano iluminista como para o sujeito masculino religioso anti-iluminista, a última possibilidade de afirmar a sua grandeza. A guerra no Irão, que escapa ao controlo devido às suas contradições, contém o potencial de uma escalada incontrolável. As guerras e a militarização no capitalismo em crise são expressão do impulso de destruição e autodestruição inerente ao capitalismo. Ao mesmo tempo exacerbam a situação desoladora do capitalismo, que, mesmo não podendo mais financiar uma integração social, investe tudo em potenciais de destruição. Pretende que não seja o fim-em-si irracional e sem sentido do fetiche do capital que deva desaparecer, mas sim o mundo. Ou, como escreveu Robert Kurz: «O capitalismo não é apenas um programa insidioso de destruição do mundo devido aos seus efeitos colaterais, mas leva a uma destruição e autodestruição finais através das suas próprias instituições.»
Original “Kriseneskalation: Der Krieg in Iran ist Ausdruck und Beschleuniger der Krise, die dem Kapitalismus inhärent ist” in exit-online.org e oekumenisches-netz.de, 08.06.2026. Originalmente publicado em konkret 5/2026. Tradução de Boaventura Antunes