O CREPÚSCULO DO EURO?

Da crise da Constituição Europeia à crise da União Monetária

Robert Kurz

A Europa parecia ter encontrado o seu caminho com a muito festejada adesão dos países da Europa central e oriental à União Europeia. Mas subitamente, como num céu sereno, o previsível fracasso do acordo constitucional da União Europeia com o resultado negativo dos referendos na França e na Holanda pôs em causa todo o processo de integração. Logo começaram os boatos sobre a dissolução da União Monetária. Este foi o maior choque. Vê-se agora que a construção do Euro está tolhida pela crise económico-social. A Constituição e a União Monetária europeias são sem dúvida um figurino neo-liberal; com eles trata-se sempre apenas de executar a globalização do capital, reduzir os custos de transacção no interior da União Europeia e abrir caminho para as global players se furtarem aos custos das transferências sociais. Mas é imprudente confundir a rejeição deste conteúdo neo-liberal pelos cidadãos eleitores com um princípio de resistência social. Trata-se antes unicamente do desejo regressivo de, perante a crise, fugir para a renacionalização. O que é apenas o reverso da mesma medalha. Nomeadamente aqui na Alemanha o que está à espreita da frustração do euro não é senão o velho nacionalismo do marco alemão.

No interior do euro permanece de facto o defeito de nascença, de ele não ter sido posto em marcha como expressão monetária de um espaço política e economicamente unificado, mas imposto exteriormente a condições nacionais completamente diferentes, como quem segura um cavalo pelo rabo. Níveis de produtividade reciprocamente afastados, diversas formas de direito e aparelhos estatais não podem suportar uma cobertura monetária comum. Uma união monetária com taxas de inflação completamente diferentes, políticas internas nacionais contraditórias e uma diferença de produtividade apesar de tudo crassa, com taxa de juro nivelada por baixo tem que caminhar para o ponto de ruptura. Acabou a lua-de-mel da retórica do Euro; agora em todo o lado impendem os chamados ajustamentos, que necessariamente a qualquer momento terão que se seguir ao desfazer das condições de produtividade e das formas políticas, por um lado, e da unidade monetária, por outro.

No exterior, a introdução do euro aparece também como sinal duma crise permanente do sistema monetário mundial desde o colapso do modelo de Bretton Woods, no fundo já desde o abandono do padrão ouro na Primeira Guerra Mundial. O século XX foi também uma época de inflações, crises do dinheiro e das moedas, porque a substância do dinheiro já não pode ser garantida objectivamente, mas apresenta-se apenas como uma garantia estatal, político-jurídica, dum "meio de pagamento legal", que é cada vez mais socavado. Desde que também a ligação do dólar ao ouro teve que ser cortada em 1973, as relações monetárias internacionais desestabilizaram-se e converteram-se em flutuações cambiais selvagens, que se transformaram num particular campo de especulação.

O euro deveria também contribuir para o restabelecimento do sistema monetário mundial. Alguns pretendem com efeito que ele poderia transformar-se em concorrência ao dólar como dinheiro mundial (moeda de reserva e das transacções) na linha das ambições de potência mundial da UE. Mas até para isso faltam as condições. Pois após o rompimento da ligação ao ouro a máquina militar sem concorrente dos USA transformou-se enquanto poder garante do processo de valorização globalizado em quase "ouro" do dólar. A UE não tem nada de semelhante para oferecer. Além disso os USA através da identidade entre dinheiro mundial e poder militar de garantia da globalização transformaram-se em "aspirador" tanto do capital dinheiro já não reinvestível rentavelmente como dos excedentes de mercadorias do mundo. Também a UE tem um interesse vital em que não colapse o circuito deficitário global com os EUA como centro. Como resultado dos hiper-acumulados deficits das balanças comerciais e de capital está pendente em todo o caso a desvalorização do dinheiro mundial dólar. Porém o euro, na sua construção interna defeituosa e na falta de poder de garantia exterior, não constitui qualquer alternativa. A crise do euro poderia agudizar-se numa nova crise do aliás frágil sistema monetário mundial. Por maioria de razão um regresso ao marco alemão e ao franco francês nada mudaria. Pois a crise da moeda é apenas a expressão duma crise mais profunda do mercado mundial, sob as condições da terceira revolução industrial.

Original: EURO-DÄMMERUNG?, semanário FREITAG, Berlin, 10.06.2005

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