O CAPITALISTA AMBULANTE GLOBAL

O capital transnacional não consegue substituir o Estado, embora lhe tenha subtraído o controlo sobre os processos monetários.

Por Robert Kurz

É frequentemente afirmado que a Globalização não é nada de novo. Isto só é verdade na medida em que o sistema moderno de produção de mercadorias, já desde o Séc. XIX, provocou uma aceleração devido às suas próprias contradições. Por um lado, desenvolve ilimitadamente as forças produtivas, por outro, pretende eliminar estas mesmas forças na forma de valor que, pelo mesmo processo, é desvalorizada. A fuga para a frente resultante desta contradição levou o capital a transbordar as fronteiras das economias nacionais e a desenvolver simultaneamente o Capitalismo Financeiro, ou seja, o sistema de Crédito e a antecipação de lucros futuros e virtuais.

Mas esta dinâmica, presente desde o início no Capitalismo, foi-se desenvolvendo historicamente e sofreu no decurso da sua evolução não apenas uma aceleração quantitativa como também, qualitativamente, desenvolveu novas formas. No Capitalismo Financeiro clássico do século XX cresceu a importância do crédito bancário, porque os custos de investimento explosivos, devido à incorporação económica das descobertas científicas, cada vez menos podiam ser financiados com os fundos das empresas. Ao mesmo tempo, a exportação de mercadorias transformou-se em exportação de capital, sem dúvida em volume relativamente pequeno e principalmente para as colónias e zonas de influência dos impérios nacionais. Nesta época, o Estado podia ainda, a partir do centro, como "capitalista global ideal", determinar a dinâmica do sistema.

Após o colapso do mercado mundial na época da Segunda Guerra Mundial, a dinâmica então suspensa das contradições económicas continuou sob o tecto da "pax americana". Só então se desenvolveu em larga escala a exportação de capital entre as próprias economias nacionais centrais, o que tornou obsoleta a antiga concorrência dos impérios nacionais.

O Estado perdeu completamente o leme deste desenvolvimento quando, na terceira revolução industrial, o Capitalismo Financeiro Clássico se converteu no sistema global de uma capitalização bolsista internacional. A fuga do capital dinheiro perante a evaporação da substância real do valor, tornou a formação de bolhas financeiras, anteriormente cíclica, num estado permanente; o financiamento bancário clássico ao capital produtivo real foi superado pela Banca de Investimento num Capitalismo de Fundos (acções, divisas, etc.).

A relação entre capital real e capital financeiro inverteu-se assim completamente. A produção e os fluxos de mercadorias, incluindo de bens de investimento, são agora apenas funções derivadas da capitalização bolsista, que, como estrutura propulsora, só pode funcionar numa forma transnacional - o quadro nacional, segundo os critérios do "capital fictício", seria demasiado estreito para permanentes reviravoltas.

A produção de mercadorias desenvolveu-se de forma semelhante a esta. Em vez de capital de exportação, segundo o sistema mecânico de unidades industriais verticais, nos termos do qual os diversos estabelecimentos empresariais nos diversos países se situariam todos ao mesmo nível, surgiram as cadeias de criação de valor baseadas em empresas transnacionais, cujos componentes estão espalhados por todo o mundo - por exemplo, a produção em França, o marketing em Singapura, a contabilidade na Índia.

Este Capitalismo de crise globalizado não pode já ser formado nas economias nacionais. No entanto, o capital transnacional não está em condições de substituir a polaridade entre economia e política; ele não pode substituir nem a força armada do Estado nem a sua função produtora do fetiche dinheiro, embora lhe tenha subtraído o controlo sobre os processos monetários.

Por seu lado, os Estados apenas conseguem ir a reboque das exigências que a capitalização bolsista impõe à sua esfera de actuação; o Estado deixou de ser um capitalista ideal, para se converter num capitalista ambulante global.

Na periferia, esta nova qualidade da contradição levou já ao abalo e, em muitos casos, à completa dissolução do aparelho do Estado, na medida em que ele não consegue já financiar a sua força armada nem sustentar a sua própria moeda.

No centro, o Estado, como guarda nocturno da globalização, é reduzido às funções da segurança imperialista e da política monetária que eram anteriormente o núcleo fundamental da "soberania". O papel decisivo neste quadro cabe aos Estados Unidos, como última potência mundial protectora do Capitalismo de crise global, com o Dólar como moeda do mundo inteiro.

A chamada revolução neo-liberal do guarda-noturno universal, Estados Unidos, não superou na realidade o Keynesianismo, mas fez surgir a sua única forma possível sob as novas condições existentes. Nos anos oitenta, o Keynesianismo armamentista da "Reaganomics", não só foi, conjuntamente com a corrida fatal aos armamentos da União Soviética, o ponto de partida para o novo imperialismo monocêntrico da segurança mundial, como criou também, simultaneamente, como bomba da liquidez, as condições para o aparecimento, nos anos noventa, da auto-alimentada bolha financeira da "New Economy" e a assim despoletada conjuntura do "milagre económico" nos Estados Unidos.

Em vez de serem desmanteladas, as sobrecapacidades globais entulharam os ricos Estados Unidos de mercadorias, enquanto o afluxo da liquidez global às bolsas Norte-americanas fez com que a balança comercial americana pudesse brilhar com os elevados excedentes resultantes da tributação da "bolha" conjuntural.

Desde a Primavera de 2000, o processo do endividamento das famílias e das empresas ultrapassou a capitalização bolsista e atirou os mercados financeiros globais para o fundo - a bomba de liquidez automática já não funciona. Assim, tal como Bill Clinton foi o "sunny boy" da conjuntura especulativa, George W. Bush tem de encher novamente com criação estatal de moeda a fonte seca do "capital fictício" e da precária conjuntura mundial. O Keynesianismo bolsista de uma política americana de drástica descida das taxas de juro deveria abastecer os adormecidos mercados financeiros; ao mesmo tempo que, com a denúncia dos tratados de desarmamento e com o novo programa do escudo anti-mísseis, volta o Keynesianismo armamentista.

Mas, no estádio actual do Capitalismo financeiro transnacional, Bush não pode repetir impunemente a "Reaganomics". O aumento da liquidez estatalmente induzida nos Estados Unidos não poderá mais uma vez ser absorvida por uma auto-alimentada bolha financeira - o nível de endividamento é demasiado elevado para isso. A euforia pelo salvamento da conjuntura americana e mundial através de políticas armamentistas e monetárias tornar-se-á em grande indigestão mundial, se, após algum tempo de incubação, se seguir como consequência a valorização do dólar, moeda mundial. Tal não seria consequência de uma política monetária "errada", porque não pode já haver uma certa, mas de uma contradição interna há muito amadurecida, que finalmente aparecerá também como crise irreversível à escala mundial, do intermediário fetichista dinheiro.

 

Robert Kurz é sociólogo e ensaísta alemão, autor, entre outros, de "O Colapso da Modernização" (Ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1992), de "Os Últimos Combates (Ed. Vozes, Petrópolis, 1997) e do "Schwarzbuch Kapitalismus" (Eichborn, Frankfurt, 1999) (O Livro Negro do Kapitalismo, ainda não traduzido em Português) e co-autor do "Manifesto Contra o Trabalho", editado pelo Grupo Krisis, que publica em Nuremberga a revista do mesmo nome.

Publicado em Jungle World, nº 30/2001, Berlim, 18/07/2001.

Traduzido do alemão por José Paulo Vaz


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